Pra comer as orelhas – Void #063
Por Leandro Vignoli // Fotos: Barbara Mattivy e Bruno Natal
O Dia no Campo é justamente o lugar onde não acampar em Londres. Em sua quarta edição, o ainda pequeno festival Field Day ocorre num único dia, no Victoria Park. Lugar estratégico da capital inglesa, o parque está encravado na principal região onde moram e frequentam os hipsters da cidade. Você sabe, aquele povo que é mais moderno que você, independentemente do quanto moderno você seja agora. Que usa camiseta com a citação do filme mais Lado B daquele diretor alternativo, chapéu (de cowboy se o de cowboy não estiver na moda, boina se a boina não estiver na moda, e etc.), bigode “irônico”, algum óculos bastante esquisito, na verdade qualquer coisa extremamente esquisita que ele finge dar a impressão de que arrumou de forma bem despreocupada. Barba também é critério, e há certo orgulho de ser confundido com um mendigo, mesmo algum mendigo de iPhone. Ultimamente, a tendência é andar de bike de ciclista (aquela de ferro alto e roda fixa) sempre colorida, toda descolex, tendência bem útil para colar no Field Day, que rola ali ao lado, como eu dizia. E, de certa forma, é para eles que esse festival é feito.
Ainda assim, apesar dessa estética fashionista do público, ele está lá realmente preocupado em curtir uma boa música, com penca de bandas desconhecidas, muitas bastante experimentais. A curadoria é feita por um coletivo de produtores londrinos, capitaneado pelo hypado blog Eat Your Own Ears. O preço de 30 pounds pelo ingresso é bastante barato para padrões locais, embora lá dentro, os £4 pela ceva sejam meio abusivos. E, apesar de os hipsters dominarem a cena, você encontrava quase de tudo. Alguns só no esquema tênis-jeans-camiseta, alguns fantasiados de spider-man, e boa parte do público usando galocha, elemento típico dos grandes festivais – mesmo em dia de atípico e intenso calor como foi, onde a poeira substituiu o que seria barro. Mas isso era das poucas coisas que lembrava os gigantes Glastonbury ou Reading, que possuem line-up maior, de bandas mais óbvias e um tanto repetitivas.
Com um main stage e outras cinco tendas bem próximas espalhadas ao longo do parque, o público não ultrapassa as 20 mil pessoas. Ninguém está ali desesperado para ver alguma atração, a vibe é mais de relaxar num sábado, pra conhecer algumas novidades modernosas. As bandas também se comportam de maneira mais sossegada, fazendo do festival quase um teste. Alguém que vai bem por ali pode alcançar voos maiores. Quem manda mal pode considerar a possibilidade de trampar num escritório de segunda a sexta. Ainda que a maioria delas também esteja se lixando pra coisa toda. Estão em plena Londres, num festival pouco conhecido, sem nenhum grande fã enchendo o seu saco e podendo experimentar à vontade. Nas tendas de música eletrônica mais cabeçoides (não feitas para dançar, mas apenas para dar um nó no cérebro de quem ouve), a impressão é de que alguns dos artistas erram todos os seus beats programados no laptop, e a galera acha que aquilo é alguma tendência muito cult. Quase como um filme do Tarantino: não dá pra saber se é estética ou tosquice. Provável que seja um pouco de cada, mas eu cresci numa vila e não sei identificar.
Uma das vantagens inglesas nessa de ir a festival todo ano é que eles não se furtam em entrar no espírito da coisa. Não havia “no campo” pessoas bêbadas rolando pelos cantos ou vomitando. No lugar, preferem se divertir nas quase quermesses promovidas pelo evento. Cabo de guerra, corrida do saco, e a sempre genial corrida com o ovo na colher era uma atração à parte, todo mundo disposto a participar (um brasileiro, mostrando todo o seu vigor esportivo, ganhou uma dessas corridas e, acreditem, não fui eu). Concorridas mesas de pingue-pongue também se espalhavam pelo parque, e, para os mais ousados, havia o chapéu-mexicano (ceva + parque de diversões = desastre). Talvez essa seja a maior vibe do primeiro mundo. Os caras são idiotas, mas não aquele tipo de idiota disposto a discutir no trânsito por alguma bobagem. São quase como personagens do fim de semana. Quando cansam, ficam ali jogados na chill-out area ouvindo uma espécie de banda marcial da Rainha tocando versões instrumentais de MICHAEL JACKSON. Podia ser alguma outra piada que não entendi, mas foi das coisas mais fodas que vi no festival todo.
Entre o que o Field Day deixa a desejar está o som. Crítica constante desde os anos anteriores, ele fica mesmo muito abaixo em relação aos já citados festivais mais tradicionais da Europa (algo bem #brasilfeelings). No main stage, quem ficava lá pro fundo escutava o som baixo, embolado, sem vazão. Nas tendas, superlotadas, quem ficava muito na frente ouvia apenas uma maçaroca de som, algo apenas parecido com graves e agudos que formam uma música. Uma pena, porque são mais de 100 bandas tocando, boas o suficiente pra quem não ficou congelado nos últimos 20 anos ou só ouve o que sai em capa de revista. O cast varia em todo estilo de música emergente que você possa pensar, do rock ao eletrô. Obviamente, destas todas, consegue-se acompanhar muito pouco das que valeriam a pena. Entre as que não pude ver (por razão de schedule, de logística ou de desconhecimento), algumas das que bombaram no evento foram Lightspeed Champion, Memory Tapes, Atlas Sound, o geniozinho do dubstep Mount Kimbie, as fermentações eletrônicas de Max Tundra, Golden Filter e Simian Mobile Disco, a dupla noise No Age (que tocou no Brasil ano passado) e o octeto Hypnotic Brass Ensemble (que deve vir aqui ao país em outubro). Nomes para anotar e ouvir com mais atenção. Entre aquelas que conferi, seguem aí algumas que vão para o trono: o da Rainha e o do banheiro.
E NO CAMPO SAUDEI
The Kissaway Trail
No palco eles soam mais que um simples “genérico de Arcade Fire”. Com três guitarras no talo, um baterista metrônomo, e um baixista “pulsante”, a banda destrinchou músicas dos seus dois discos com energia e sem falhas. Destaque para o “tocador de tambourine”, um gurizão que aparentemente não faz nada.
Archie Bronson Outfit
O figurino de batas coloridas de africano (ou algo assim) era chamativo, mas não o principal. A banda é uma destruição ao vivo, com sua linha de bateria alta e sequencial e guitarras distorcidas quase como se fosse aquilo um blues tocado pelo Sonic Youth na psicodelia de 1969. Demente e magistral.
The Fall
O fato de Mark E. Smith ser um ANCIÃO e a banda ter lançado seu primeiro disco em 1979 rendeu uma série de “quem são esses caras?” ao meu redor. São das melhores bandas de post-punk ever, que um tal Franz Ferdinand imita e que cantava a clássica “I Hate You” provavelmente pra vocês, cuzeros.
Caribou
Ex-cabeçudo da eletrônica experimental toca agora com banda, tracks bem mais dançantes, num climão meio soul-de-branquelo. A distância do palco prejudicou, mas deu pra sacar que ali tem potencial de ENCOXAMENTO. Tocam no Brasil em outubro, entãoseligamano.
E NO CAMPO CAGUEI
Phoenix
Queridinhos indies e principal atração do evento, fizeram um show amorfo e parado, e o problema no som deixou a coisa ainda mais esquálida. E nem é que sejam ruins ao vivo, é que realmente tavam despilhados da coisa toda. Tocam no Brasil em novembro. Boa sorte.
Gold Panda
Queridinho dos hipsters e dub-stepers, a grande real é que o som dele parece um videogame estragado. E ele fica ali, tentando arrumar no laptop, enquanto a galera acha que aquelas coisas tocadas são na verdade as músicas.
These New Puritans
Curto a banda e os discos, mas o show é modorrento ao extremo. Analogia: como se ela te oferecesse sexo de graça com a Sasha Grey e na hora da apresentação te desse apenas o filme pornô da Gretchen num DVD pirata.
Gruff Rhys Vs. Tony da Gatorra
Rhys é o vocal da excelente Super Furry Animals, e Tony da Gatorra é um véio hippie da região metropolitana de Porto Alegre que criou esse instrumento, a gatorra, com formato de guitarra que funciona como “bateria” eletrônica. Rhys tocou com capacete de Power Ranger. Tony, com sua faixa escrito PAZ. O som é inclassificavelmente tenebroso. Todo mundo curtiu a piada. Eu já conhecia.

Entre erros e acertos, passar o dia no parque travestido de campo é muito satisfatório. Com ingressos disponíveis na hora, sem correria, sem barraca, sem viagens longas pelo interior inglês, é uma ótima opção aos festivais onde geralmente se depara com um decepcionante sold out. Em termos comportamentais, você topa com o londrino mais típico possível, sem tantos turistas ou pessoas dispersas. E, em termos de música, só depende de você. É possível entrar numa tenda e ficar imerso em novas propostas, às vezes bastante difíceis de entender, ou, se não tiver paciência, apenas deitar na grama, estender uma toalha e comer um sanduíche. Ninguém vai se importar.








[...] This post was mentioned on Twitter by Revista Void, Barbara Mattivy. Barbara Mattivy said: É nóis RT @revistavoid: Um raio-x do Field Day por @vignolileandro, com fotos de Bruno Natal e Barbara Mattivy: http://bit.ly/aP5bsq [...]
[...] eu estava lendo a última edição da revista Void, em que um dos colunistas contou sobre o Field Day, um festival que rola em Londres. Ele faz uma lista com os destaques (bons e [...]
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