A resistência escotista – Void#071

Por Felipe de Souza / Fotos: Mauricio Capellari
Levante a cabeça, olhe para os lados e observe bem os jovens que estão ao seu redor. Mire todos eles, essas jujubas fantasiadas em cores flúor com seus moicaninhos de puta louca e sneakers que custam mais que um salário mínimo. Entre eles pode haver familiares, primos, irmãos ou até mesmo filhos seus. Mas diga a verdade: dá pra levar fé nessa cambada de retardados? Há neles alguma esperança de transmissão dos mínimos valores de civilidade, companheirismo e solidariedade? A resposta é fácil: não!
Desculpem os leitores se o primeiro parágrafo parece amargo. É que nessa edição decidimos ir atrás de uma galera que talvez não saiba (nem queira saber) qual é a última tendência do dancefloor, muito menos preocupados em qual é a nova droga do pedaço. Eles fazem parte do Movimento Escoteiro e, aparentemente, passam batidos por certas influências nefastas. Escrevo isso de cadeira, pois, na minha tenra idade, eu estava lá: enfileirado entre eles, hasteando bandeiras, o coração pulsando forte sob a insígnia do Cruzeiro do Sul (1) e passando tardes em bosques verdejantes, sempre em busca da próxima aventura, de um novo passo a ser dado. Ok, isso foi antes dos Ramones, do LP Arise do Sepultura, da maconha e das intermináveis bebedeiras da adolescência. Mas como diz o lema: “Uma vez escoteiro, sempre escoteiro!”
Abundantes nas tardes de sábado durante os anos 80 e 90, notamos que se vêem cada vez menos jovens uniformizados em cores cáqui pelas ruas, por isso decidimos dar um confere e saber como é ser Lobinho, Escoteiro, Sênior ou Pioneiro em dias em que a tal da Geração Y toma conta do cenário. E a primeira parada em busca de respostas e lembranças de um passado distante se deu no Grupo Escoteiro Charruas. Lá, fomos recepcionados por Rosa Neumann, a Tia Rosa, figura agradabilíssima que nos recebeu como se fôssemos praticantes de uma boa ação por dia (o que não somos). Ela é o que se chama de camelo, ou seja, pau pra toda obra dentro do grupo. Ajuda na cozinha, nos acampamentos, nas atividades em geral. “Estou há vinte anos aqui e trouxe minha filha depois que ela tentou ballet, natação e outras atividades”, recorda.
Apesar de tamanha dedicação, os perrengues de se manter um grupo escoteiro não são poucos. Os Charruas têm 91 anos de tradição e durante 60 deles ocupou uma área muito propícia ao escotismo: um lugar cheio de mata nativa. Mas interesses escusos empurraram a tropa para o despejo. Lamentável. Depois do baque, veio a reestruturação que só a disciplina e o caráter escotista são capazes de desempenhar. Hoje as atividades foram retomadas em uma instalação cedida por uma grande empresa imobiliária. É apertado, improvisado, mas o espírito desbravador está intacto. Tia Rosa se adianta e informa que o Movimento Escoteiro evoluiu e não blinda os jovens dos assuntos atuais: “Temos conversas periódicas sobre sexualidade, sobre drogas, religião…” Apesar do diálogo aberto, Rosa faz questão de frisar que hierarquia é hierarquia, respeito é respeito e quem não seguir a filosofia vai sofrer o pênalti, pois o intuito maior dessa parada toda é e sempre foi “formar cidadãos”.
Para provar que não é papo furado, pelos Charruas passaram moleques que hoje são doutores em arqueologia, atuários com título de MBA nas costas, empresários, engenheiros de todas as áreas, biólogos… Djs? Fotógrafos? Grafiteiros? Não! Dali só saiu gente com trampos de verdade, pessoas que realmente vão contribuir para essa porra de mundo se tornar um lugar menos abjeto. “Pode ser que o movimento tenha um cunho positivista e até de direita, mas até agora tem dado certo. Quando a pessoa sai daqui, sai pronta para encarar a sociedade”, ressalta Tia Rosa. Ela não deixa de ter razão e reforça seus argumentos com o exemplo do finado José de Alencar, vice-presidente da gestão de Lula, que também era um escoteiro. Diz a lenda que uma das últimas frases de Alencar, em sua árdua batalha contra o câncer foi: “O escoteiro é alegre na adversidade”.
Sem marshmallow, sem papinho furado
Falando em adversidade, o dia de nossa visita aos Charruas foi um daqueles sábados que geral opta por ficar em casa. Mas como disse Alencar, o rapeize escotista está aí para superar contratempos e a chuva fina que caía naquela tarde não foi empecilho para as atividades do grupo. Em um dos cantos do terreno, entre ruínas e lama, elementos da tropa Sênior montavam uma ponte pênsil. E uma das responsáveis pelo engenho foi Bianca Rodrigues, 15 anos e estudante do segundo ano colegial. Ela quer prestar vestibular para Direito e diz que às vezes tem que aguentar o preconceito da galera que se diz descolada no colégio. “Eles ficam zoando. Dizem: ‘aí escoteirinha, vai assar uns marshmallows?’. Mas não dou bola, se eles vierem aqui vão ver o que realmente fazemos”.
Além das peripécias em terreno e clima hostis, a cultura do escotismo também exige união dentro e fora do grupo. Reuniões na casa dos colegas são constantes e isso conta ponto. “Quando não tem acampamento a gente faz reuniões de patrulha. Uma das provas que temos na tropa sênior é fazer uma reunião na casa de uma pessoa e fazer um jantar”. E marshmallow é o cacete, Bianca mandou ver um fricassê e apavorou no desempenho.
Categorias de base
No mesmo terreno, porém abrigados das intempéries do tempo por um telhado de zinco, estão os Lobinhos do grupo. Eles são uma espécie de categoria de base do movimento e tem entre sete e 11 anos de idade. A primeira a nos chamar atenção no meio da petizada foi Analli Militão, uma lobinha de 10 anos e altamente graduada. “Meu primo fazia escotismo, um dia ele me convidou e eu vim pensando que era só brincadeira. Aí gostei e fiquei. O meu primo nem está aqui mais, mas eu segui”, recorda. No uniforme azul escuro se destacam as várias especialidades da menina: Babá (“Cuidei dos meus irmãos de cinco e quatro anos”), Artes Cênicas, Música, Patinadora, Colecionadora (“Coleciono cartões telefônicos. Tenho mais de mil”), Sobrevivência (“Precisa se cuidar na cidade, na selva urbana”), Acampador (“Tem que saber armar barraca e consertar furos na lona”) e Confeitaria (“Fiz brigadeiro. Tive que enfeitar a bandeja e servir para os colegas”). Agora fica a pergunta: você fazia tudo isso aos 10 anos de idade? Se quer melhorar a raça e ver seu filho ser mais útil e não só um consumidor de oxigênio em um planeta saturado, mete o moleque dentro de um grupo escoteiro assim que ele se alfabetizar.
Para reforçar a ideia de uma infância sadia, ao lado de Analli está o também Lobinho Bernardo Castañeda, de 10 anos. A exemplo da colega, ostenta várias insígnias no uniforme e está no movimento desde os seis anos de idade. “Gosto muito do estilo de vida que a gente leva aqui. O escotismo mudou minha forma de vida. Depois que entrei aqui passei a olhar as coisas de um outro jeito. Mentia muito para minha mãe. Fazia coisas erradas e colocava a culpa no meu irmão. Agora não faço mais isso”, garante Bernardo.
Autocontrole e respeito ao lenço
Visitar um grupo escoteiro e conversar com seus integrantes é um exercício para perceber que sua vida mundana é torta e, aqui fora, não fazemos porra nenhuma da maneira correta. Somos todos imbecis perdidos em noites sujas e botecos decrépitos, sempre atrás de sexo fácil e minas escrotas. Essa impressão ganhou força depois de conversar com Jeanluca Serrano. O cara tem 15 anos e há seis não perde um sábado de atividade escoteira. “Tive vontade de sair na época que trocamos de sede. Nosso antigo local era bem maior e dava pra fazer muita coisa. Mas agora não tenho mais vontade de abandonar porque tenho outra visão do que é o escotismo. E tem o compromisso com o chefe e os companheiros de tropa também”, explica.
A adolescência é um período conturbado em qualquer esfera, seja o sujeito escoteiro, punk, evangélico ou testemunha de Jeová. Mas a vantagem do escotismo é que parece que o movimento dá uma blindagem para a molecada, inclusive no que tange às tentações carnais (muitos padres católicos não têm esse controle). A paquera até rola dentro dos acampamentos, mas Jeanluca garante que não acontece nada além disso. “Já fui para o Uruguai e lá uma menina me pediu o MSN. Aí tudo bem, dá para trocar telefone, Orkut e se falar depois. Mas com uniforme não rola nada. Tem que ter autocontrole e respeito ao lenço do grupo”. O orgulho de ser escoteiro é tamanho que o rapaz já planeja sua primeira tatuagem: vai riscar a Flor de Lis, símbolo do movimento, no braço. E vai além: “Eu quero deixar meu testemunho para aqueles que acham que o escotismo é só jogos e brincadeiras. Não é. Escotismo é união, é ter deveres com Deus, a pátria e o próximo. Não é coisa só pra vir no sábado. Não é modinha. O movimento tem mais de 100 anos. Todo mundo que faz a promessa sabe o valor do distintivo, o valor do lenço do grupo”.
Fogo amigo
Nossa incursão pelo mundo do escotismo foi tão bem recebida que fomos convidados para o Fogo de Conselho dos Charruas, uma espécie de festa de aniversário da agremiação, que contaria com a presença de pais e de integrantes de outros grupos. Em mais um sábado de tempo instável, lá fomos nós para o campo. O clima familiar nos contagiou, junto é claro com o cheiro de cachorro quente que pairava no ar. A atmosfera era de amizade e companheirismo, diferente do que acontece geralmente em outras pautas em que nos metemos nos últimos anos. Aproveitamos o rolê para conversar com as mães da molecada e conferir se essa parada realmente muda a conduta dos figuras.
A primeira a atestar a eficácia do movimento é Marjorie Gomes, mãe de um escoteiro de 11 anos. “Dá um conforto em saber que ele não está grudado em um videogame, nem pendurado o dia inteiro na internet. Ele é filho único e não teria com quem interagir. Aqui eles passaram o dia de hoje inteiro trabalhando, contando histórias, ensaiando teatro e depois vão dormir como anjos (risos)”. Marjorie, além de mãe coruja estilo comercial de Gelol, propagandeia aos quatro ventos as vantagens de se ter um pimpolho uniformizado e com lenço no pescoço. “Eles têm uma ótica diferente das outras crianças. Eles fazem banco de alimentos, vêem a importância do trabalho voluntário. O jovem de hoje não está nem aí para isso, está egocentrado e quer que o mundo se exploda”, completa.
No terreno do evento, um portal foi armado com toras de madeira, o pessoal começou a chegar e formar um círculo ao redor da fogueira. Depois de um sinal sonoro, abriram-se as portas e tochas foram carregadas até o centro do pico. A partir daí, o fogo crepitava e a cantoria rolava solta. Foi uma deixa para vazarmos e preservar aqueles momentos aos puros de coração. Ali, além de intrometidos, éramos também inadaptados. Deu inveja branca daquela molecada cheia de vida e que esbanjava disposição mesmo com vento frio e mosquitos fustigando a derme. Nós, pobres carcaças infelizes, batemos em retirada e fomos filosofar sobre tudo o que vimos no primeiro bar que encontramos.
É preciso ser alegre e disciplinado
Em mais um sábado de tempo incerto (a garoa foi uma constante em nossa viagem ao universo do escotismo) decidimos ir até as dependências do Grupo Escoteiro Leo Borges Fortes, ou Lebefê, como é conhecido. O grupo está completando 50 anos e sua trajetória é cheia de mudanças de sede, diminuição de contingente e esforço para manter os valores do movimento. Quem nos recebe lá é Francisco Ferreira, 48 anos e desde 1972 na função. Quando peço para irmos a um lugar coberto para nos proteger da chuva, ele lança a pérola: “Ok, mas lembre-se que o escoteiro é superior ao tempo”.
Hoje, Ferreira exerce uma função de chefia junto à diretoria do grupo e é ele quem explica como manter vivo, mesmo em tempos de degenerescência, o tripé Deus, Pátria e Família, base do movimento escoteiro. “Apesar de ser secular e de ser a maior ONG do mundo, o escotismo não é estático, estamos em constante mudança e usamos as ferramentas atuais para passar o conhecimento aos mais jovens”. Para Francisco, o escoteiro precisa de duas qualidades: ser alegre e disciplinado. “A lei é uma só, mas o movimento escoteiro é para todos, sem distinção de cor ou credo e sem ver dinheiro no bolso nem etnia”, completa.
Outro que atesta que o barato do escotismo continua vivo nos corações de muitos jovens é José Carlos Petró, também decano do Lebefê. Ele confirma que a chefia deve estar atenta aos novos ares. “Um pouco antes do criador do escotismo Robert Baden Powell morrer, foram pedir conselhos para ele de como um praticante devia seguir. Ele apenas disse: ‘Perguntem aos rapazes’”, conta Petró. E o chefe também diz que a molecada de hoje não dá tanto trabalho. “Aqui o pessoal vem porque gosta, então a tendência é o sujeito se adaptar às regras. É uma escolha, um estilo de vida”.
Woodstock de calça curta
Para celebrar esse estilo de vida de maneira globalizada, a cada quatro anos rola o Jamboree Escoteiro Mundial, sempre num canto diferente do globo. Em 2011 o mega acampamento que reúne escotistas de todo o planeta acontece entre 27 de julho e 07 de agosto na cidade de Kristianstad, na Suécia. A delegação brazuca nesse ano deve atingir os 100 participantes. “Comecei os preparativos há cinco meses. Estou economizando, pagando passagem. Estão previstos cerca de quinze mil escoteiros nesse evento e o Brasil está indo com contingente bem grande”, conta Evelise Rodrigues, membro da Tropa Pioneira dos Charruas.
Lara Stelmach, 14 anos, é uma das mais jovens da delegação canarinho. Integrante do Lebefê, ela e mais cinco colegas da mesma idade embarcam para a primeira trip européia de suas vidas, tendo como responsável apenas um pobre adulto. “Não vai ter problema algum. Os escoteiros são disciplinados, somos muito comportados”, garante a menina. Outro que está de malas prontas é o pioneiro Gabriel Assis, de 18 anos. “Deixei de fazer muita festa e comprar muita roupa para poder ir nessa viagem. Vamos fazer turismo por outros países também, como Alemanha e Suíça”. E a Holanda, Gabriel, vão passar por lá também? “Holanda, graças a Deus, não!”, responde de bate pronto o rapaz. É isso aí Gabriel, mantenha-se longe de Amsterdã e daquelas vitrines que convidam ao pecado e à drogadição.
As fases do escotismo
Lobinho
Idade: de 07 a 10 anos
Atividades: Primeiros ensinamentos para a vida no campo, convivência em equipe e formação de liderança.
Lema: Melhor Possível!
Escoteiro
Idade: 11 a 14 anos
Atividades: Na Tropa Escoteira, os jovens são divididos em patrulhas e recebem ensinamentos para a preservação da natureza e debatem temas sobre a adolescência e o mundo em geral.
Lema: Sempre Alerta!
Sênior
Idade: 15 aos 18 anos
Atividades: A intenção do programa educativo para a Tropa Sênior é fazer com que o jovem aprenda novas habilidades para superar os obstáculos da vida
Lema: Sempre Alerta!
Pioneiro
Atividades: Serviços à comunidade e exercício da cidadania com base nos valores da Promessa e da Lei Escoteira.
Lema: Servir!
A origem
O Escotismo foi criado em 1907 pelo britânico Robert Stephenson Smyth Baden Powell, que era militar de alta patente do exército inglês. O cara defendeu a Coroa em batalhas na Índia e na África. Quando retornou à Grã Bretanha, era considerado um herói de guerra. Foi aí que teve a ideia de criar um conjunto de ensinamentos para os jovens que se dispusessem a uma vida ao ar livre, explorando e respeitando a natureza. Assim surgiu o escotismo, que completa 104 anos de existência
Os 10 mandamentos
Gostou do que leu e quer se aventurar nesse ramo de acampamentos e boas ações? Então é bom ir se familiarizando com as leis escoteiras. Dá um confere:
1 – O escoteiro tem uma só palavra; sua honra vale mais que a própria vida
2 – O escoteiro é leal
3 – O escoteiro está sempre alerta para ajudar ao próximo e pratica diariamente uma boa ação
4 – O escoteiro é amigo de todos e irmão dos demais escoteiros
5 – O escoteiro é cortês
6 – O escoteiro é bom para os animais e as plantas
7 – O escoteiro é obediente e disciplinado
8 – O escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades
9 – O escoteiro é econômico e respeita o bem alheio
10 – O escoteiro é limpo de corpo e alma
(1) Grau máximo do Lobismo.


















Excelente matéria, parabéns.
Chefe Leopoldo GE Guairacá 33PR
Fui escoteira 05 anos e por N motivos acabei me afastando do movimento. Assumo: MORRO de saudades, espero um dia poder voltar como chefe, assistente de tropa, ou qualquer coisa que me reaproxime do movimento. Toda criança deveria passar ao menos um sábado na vida em um grupo, sem duvidas o mundo seria melhor.