JUVENTUDE TRANSVIADA – Void#073
Por Piero Barcellos / Fotos: Maurício Capellari
Tinha uns 13, 14 anos quando fui na minha primeira festa adolescente como um membro da espécie. As baladinhas rolavam no salão do apartamento de algum colega de aula, raramente tinha bebida alcoólica e todo mundo era meio cagado para chegar na menina que estava a fim. Dos que obtinham algum sucesso, arrisco dizer que em 95% dos casos a coisa não passava de uns beijos e só. Ou seja, uma merda para quem estava no ápice da explosão testosterônica.
Agora, depois de sobreviver aos percalços da juventude, fui com o fotógrafo Maurício Capellari ver o que a garotada criada a leite com pêra e Ovomaltine anda fazendo na noite. E adianto a minha avaliação: se os anos 90 tivessem um décimo da efervescência da festinha que fomos, muita gente não sofreria com problemas de acne, tampouco procurariam psicólogos para entender o sentido da vida depois de adultos.
Cheguemo No Pico

Mal botamos os pés na frente da casa noturna e um cara numa Lamborghini fez o motor roncar alto, garantindo a alegria da galerinha que esperava do lado de fora para entrar. A função não muda com os anos: os carros chegam dirigidos pelos pais trazendo, na maioria das vezes, um par ou trio de adolescentes. Muitos progenitores contorceram o semblante ao ver que sua filha era vista como um pedaço de carne pelos urubus mirins que ali estavam.
Como a ideia era se enturmar, aproveitamos que dois deles se aproximaram para pedir fogo, e batemos um papo sobre a festa. “Ah, cara, é sempre lotado. Sempre pego umas dez minas ou mais aqui”, disse um deles. “O esquema é pegação forte. Dependendo rola sexo depois”, conta o outro. O primeiro rapaz, que nem buço tinha em cima dos beiços, começou a contar vantagem: “Lá em casa eu já aviso meu pai. Peço pro velho pegar as coisas dele e ir pra casa da namorada, pra eu poder levar alguma menina pra lá. Da última vez fiz isso e fiquei comendo a mina a noite toda”.
Na Balada

A casa noturna é dividida em duas pistas: balada pop e área rock. No entanto, tinha gente lá com um neon na testa escrito “vim só pra me dar bem”. O dresscode denunciava quem era da turminha do pagode, do funk, do skate, dos emos… Até porque a música pouco importava. O esquema mesmo era contabilizar quantas línguas se enroscaram com a sua até o fim da noite, no mínimo, já que o objetivo principal seria feito longe dali, quiçá na cama de casal dos pais.
Fui abordado por um moleque cujo rosto calejado denunciava a prática de louvor a Onã. “Tio, compra uma ceva aí pra mim?” Não consegui pensar em outra resposta que não fosse “Como assim, caralho?” Aí me liguei que o bar só vende ceva para quem atingiu a maioridade. Mandei o guri a merda. Pouco tempo depois, um par de minas também veio com a mesma abordagem. Gostosinhas até, com shortinho atochado na bunda, decotão, cara de quem tinha uns 19 anos. Larguei um papinho idiota pra cima delas, quando uma respondeu: “Toma cuidado, eu tenho 16 anos! Eu posso te processar!” Mandei elas tomarem uma Fanta Uva.
Drama Adolescente

Durante a função de observação e diversão, uma menina se aproximou com aquele papinho de “bate uma foto pro site”. Acabou conversando com a gente por um tempo. “Ai, meu, tou mal pra caramba. A mina que eu tou a fim não quer nada comigo”. Tentarei explicar o drama da moça, que aqui vamos chamar de Maria Joana (só de zueira): MJ estava a fim de outra menina. Porém, a amiga dessa menina estava a fim de MJ, e tentou ficar com ela. Como não era o alvo principal, levou um fora, e a amiga, em solidariedade, também não cedeu às investidas. Complicado? Imagine lá no meio da festa, tentando entender que isso saía da boca de uma pirralha de 14 anos e que eu jurava ter no máximo uns 17…
Mais adiante encontramos um grupo de meninas tentando consolar a amiga que levou um pé na bunda do namoradinho. Enquanto as lágrimas faziam da menina uma versão mirim do Alice Cooper, as parceiras de balada incitavam a vingança: “fica com outro, ele não te merece”. Recém passaram pela primeira menstruação e já despertaram o gene feminino do “olho por olho”. Sem conhecer a história e os envolvidos, já fiquei com pena do rapaz e do que ele poderia sofrer nas mãos daquelas moças. Não interessa a idade: mulher quando fica com ódio é melhor sair correndo ou aguentar as consequências.
Sexo: Ainda Não Sei

Maria Joana não era a única menina lá querendo fazer um spider fight. Tampouco estava sozinha no quesito “foda-se se é homem ou mulher, tou pegando igual”. Jair Bolsonaro, se ali estivesse, teria um AVC ao ver o futuro do Brasil trocando saliva com seres do mesmo sexo. A história entre as meninas é quase a mesma: ficaram com uma amiga do colégio só de brincadeira e acabaram gostando. Já entre os caras era mais difícil saber este tipo de coisa. Interceptamos dois “amigos coloridos” que, quando questionados se eram namorados, soltaram um “pfff”, abanando a mão na nossa direção como se fossem divas, e negando qualquer traço de homossexualidade, ainda que sua linguagem corporal dissesse o contrário.
Em outro momento, um grupo de amigos passou por nós e pediu uma foto, já posando para tal. Depois de ouvir que a intenção é registrar espontaneidade, um carinha disse “Ah, se é assim, xá comigo”, para em seguida engolir a amiga que estava do lado. Cliques feitos, a turminha sumiu na pista. Tempos depois, encontramos ela, sozinha, com um grupo de amigas. “E o teu namorado?”, perguntamos. “Ah, ele não é meu namorado. É meu amigo gay”. “Mas vocês se beijaram com força!” A resposta dela resumiu-se em um risinho safado dado com a mão na frente da boca.
Perto dali, chamou nossa atenção aquele que seria o mini-craque do Léo Áquila. Loiro, cabelo armado e maquiagem carregada, na mesma faixa etária dos da maioria na festa. Circulava de mãos dadas com outro cara numa boa, e fazia carão quando percebia que a câmera o mirava. Aliás, acredito que no fundo o mais legal da noite tenha sido perceber que a geração Z, apesar de mimada e com um péssimo gosto musical, está crescendo desprovida de preconceitos, respeitando a opção sexual dos seus pares e descobrindo a sua com mais liberdade e aceitação. Ao menos isso acontece do lado de dentro da festa, já que o ar ortodoxo dos pulmões paternos embaçava os vidros dos bólidos que esperavam ou deixavam suas crianças na frente da balada. Bastava uma menina com um pouco menos de roupa ou um moleque com trejeitos femininos para que alguns adultos torcessem o nariz dentro de seus carros.
O Fim Dos Freaks

Outro fato interessante é que aparentemente TODO MUNDO estava se dando bem naquela noite. Durante a festa, encontramos várias vezes o nosso contador de vantagem do início da matéria, e em cada uma delas ele estava com uma menina diferente. “A louca me deixou com umas marcas foda no pescoço, olha só”, e levantava o queixo mostrando os chupões como um troféu da noite. Outro que se destacava no lugar era uma versão do Harry Potter com dois metros de altura. Em outros tempos ele seria um dos “freaks” do colégio. Lá ele era só mais um a se divertir, e que depois vi caminhando de mãos dadas com uma baixinha para um canto mais reservado da casa.
Sem falar nas gordinhas. Creio que durante os anos que separam a minha geração da deles, as moças com uma concentração maior de adiposidade aprenderam o poder da autoestima, e a usar roupas que valorizassem seus atributos físicos, sem precisar das amigas esbeltas na volta para se darem bem. Pior para as magrinhas bulímicas e sua falta de voluptuosidade. O padrão estético “Beth Ditto” era bem assediado. Nunca estavam sozinhas, sempre com um taradinho a tiracolo. Agora, não podemos falar o mesmo dos caras…
O Drama De Rufus

Não sei se este é o nome verdadeiro dele. Chamo-o assim pela sua semelhança com Rufus o lenhador, do desenho Corrida Maluca. Gordinho, 17 anos no lombo, cara de bolacha Trakinas, estava ali pelo mesmo motivo que todos da sua faixa etária: pegar umas menininhas. Entrou na festa acompanhado de uma amiga, pagou uma bebida pra ela, e nos abordou para fazer uma foto. Quando falamos que a gente estava lá para uma matéria, ficou batendo papo, e se juntou conosco para aconselhar Maria Joana sobre como conquistar a amiga ressentida. Quando se ligou, Rufus havia perdido a amiga. Partiu atrás dela como se fosse a última esperança de se dar bem naquela noite.
Cruzamos com Rufus mais tarde… “E a amiga, cara? Achou?” “Que nada… Encontrei ela pegando outro”, disse com uma certa melancolia no olhar. Incentivamos ele a ir a luta. Como a tendência de todo ser masculino de IMC elevado é se foder, lá foi Rufus cumprir com a profecia. Encontramos com ele novamente outras vezes, sempre com um sorriso bonachão cheio de esperança de que a noite vai terminar bem. Nós, como arautos do mau agouro, sabíamos que não era isso que ia acontecer. Não deu outra – topamos com o gordinho botando as tripas pra fora no banheiro como se não houvesse amanhã. “Acho que fiquei uns cinco quilos mais leve”, comentou conosco.

Já do lado de fora da festa, esperando um táxi para ir embora, vimos Rufus saindo da balada com aquela cara de quem ficou no zero a zero total. E, óbvio, veio falar com a gente, quiçá ouvir uma palavra amiga. “Que deu errado nessa noite, Rufus?” “Cara, há dois anos venho aqui e nunca peguei ninguém. Mas sei lá… As meninas que vem pra essas festas não são muito o meu perfil…” refletiu, buscando uma desculpa para a sua fracassada noite. Interpelado pelo fotógrafo Maurício Capellari sobre como fazia para saciar as necessidades físicas, soltou um tímido “dou meu jeito”, como quem tem vergonha de admitir que mais uma vez o palhaço ficaria despenteado naquela noite.
(recomendo a leitura deste último parágrafo ouvindo The Lonely Man, do antigo seriado do Incrível Hulk)
Confesso que fiquei compadecido daquele jovem. Faltando um ano para a vida adulta, ele já sofre com a peculiar crueldade feminina e com a falta de traquejo social em ambientes descoladinhos. Falamos para ele que com a maioridade as coisas melhoram, e que no futuro bastará ele ter grana o suficiente para baixar uma garrafa de whisky com Redbull para comer quantos cus ele quiser. Que só a experiência com as mulheres erradas fará ele encontrar a mulher certa. Se este guri seguir todos os nossos conselhos, será um jovem adulto feliz – com sífilis, mas feliz. Mas no tempo presente, ele é só mais um adolescente desajeitado rumando para casa sozinho para mais uma seção de espancamento covarde de cinco contra um e buscando seu lugar no mundo, como todo mundo faz nesta idade.







Adolescência Dramática. Gostei da matéria.
Pô, ficou com pena do Rufus? Caso 20 pila que o Rufus só foi em cima das gurias que ele acha top, logo pegou nenhuma. Duvido que ele deu em cima de alguma amiga menos bonita etc!
Infelizmente para Rufus as mulheres evoluíram, agora as gordinhas sabem que selecionar não é a melhor opção. Na metáfora evolutiva, as gordinhas usam fósforos e Rufus ainda tenta fazer fogo com duas pedras.
Complicado…
Quem teve a oportunidade de vivenciar o que ainda era saudável,(anos 80, até 98,99) na época em que estudávamos (e nos dedicávamos), para ter o “direito a ir para as Baladinhas” nos Finais de semana (pelo menos eu e minha turminha de amigos, ainda com 13 à 16 anos pediamos sim, autorização aos nossos responsáveis) E quer saber? Hoje vejo nitidamente a importânicia deste lance de se “sentir cuidado”, monitorado (dávamos valor a cada conquista, a confiança adquirida aos poucos pelos nossos pais, o “prêmio” de chegarmos um pouco mais tarde, o Sabor de “ganhar a Chave de casa”)…Hoje nem deve existir mais isso!
Ultimamente, as turminhas de “crianças” de 12 anos que vemos “curtirem a Night”, não dão a menor satisfação aos seus Responsáveis (quando possuem)
Está Predominando a “Geração sem valores”.
Quando há alguma notícia “Bombástica” de “Mãe de 30 anos que abandona filhos para “Curtir” a Noite, não há outra explicação a não ser que (em muitíssimos casos) estas pessoas,(vistas até então,somente como Irresponsáveis) são no entanto, Vítimas de um passado muitas vezes Sombrio, e que agora inconscientemente estão fazendo as suas Vítimas, e que por consequência, estas (os abandonadosda Vez)farão também as suas e assim sucessivamente…
Chega a ser triste, mas é a realidade…e só irá piorar!
Como diria minhá sábia irmã , O “Super e Racional” Ser Humano evolue…porém, caminhando para trás…
pior matéria que ja li na vida hahahahahahha
Eliélcio Balestrino, tens MSN ou alguma outra rede na qual posso te contatar?
Gracias!
Pow a musica pra acompanhar o ultimo paragrafo foi fooda uahuahuahauuah.. a materia foi bem legaal, fiquei com dó do rufus tambem D= mas dps que ele tiver uma habilitação, um carro e grana pra sustentar as mulheres ele vai ser feliz uahuahua
Eu sou uma que vou nessa festa para dançar e só. Então, não generalize. Tá certo que também eu só continuo indo a este local só porque no meu grupo de amigas eu sou a unica que já fez 18, então né.
Porra! Achei muito engraçada essa matéria! bahahaha
Essa galera tá fudida, no fim das contas.
Mas, né… quem não teve seus tempinhos de Cord que atire a primeira 10g.
merda
Realmente legal a materia … fiquei meio que surpreso, e um tanto indignado … como as coisas se tornaram desta forma… ou seria um pensamento Puritano de nossa parte, que com 21 anos já estamos sendo chamados de Tio.
Passo por essa de ser chamada de tia,e tirada pra motora do meu irmão de 17, no auge dos 21 anos. Bando de piá desaforado! haha